V DOMINGO COMUM (Ano B)
1. O enigma do sofrimento humano.
O sofrimento humano é um dos problemas que, mais tem angustiado os homens de todos os tempos. Ao ligarmos o botão do nosso televisor (ao olharmos para o mundo em que vivemos) facilmente descobrimos que, ainda hoje, há muitas pessoas que sofrem.
As desgraças, as calamidades, as injustiças, a exploração económica e sexual, as guerras, as doenças incuráveis... continuam a ser uma realidade.
Com certeza que, cada um de nós, já colocou a si próprio estas e muitas outras perguntas: Porque é que Deus permite o sofrimento, a doença, a guerra? De quem é a culpa? Porque é que os justos e os inocentes sofrem e os maus têm sucesso, aumentam as suas riquezas e gozam de boa saúde?
2. A 1ª Leit. projecta alguma luz sobre este enigma da existência humana. Job, ao princípio, era um homem extraordináriamente rico e feliz que vivia num país longínquo do Oriente; era um homem bom, generoso e fiel ao Senhor, mas, de repente, a desgraça bate à sua porta: perde os filhos e os bens e é atingido por uma doença dolorosa e repu-gnante. Até a mulher sente repugnância em se aproximar dele (Job 1, 1-2, 13).
A nossa vida sobre a terra, a semelhança da vida de Job, é muita precária, extremamente breve e fértil em penas e dores. Job sente que o homem é como um escravo obrigado a fazer imensos sacrifícios sem obter qualquer espécie de recompensa; é como um trabalhador que labuta do nascer ao pôr-do-sol, num campo que não é o seu, suportando o calor na expectativa de que chegue a noite (vv.2-3).
Quando pensa na sua vida, sente-se o mais desgraçado dos escravos, o mais infeliz dos trabalhadores; sente que a felicidade é um sonho, uma ilusão vã: "os meus olhos nunca mais verão a felicidade".
3. No Evangelho de hoje, vemos como Jesus enfrenta esta reali-dade. Ele não propõe explicações teológicas, não recorre a raciocínios complicados para explicar os motivos porque há no mundo doenças e sofrimento.
Com a sua intervenção dá-nos uma primeira resposta: o mal existe, mas não é invencível. A culpa do sofrimento e a das doenças não pode ser atribuída a Deus. A única atitude que devemos assumir é colocar-nos ao lado de quem sofre e lutar com todas as forças contra o mal.
Vejamos como é que Jesus faz no Evangelho...
A) O primeiro caso que é apresentado a Jesus é o da sogra de Pedro (vv. 32-34).
Não sabemos qual é a sua doença, apenas sabemos que está de cama com febre. "Jesus aproxima-se, toma-a pela mão, levanta-a e ela começa a servi-los". Todos os pormenores são importantíssimos: antes de mais, quando Lhe falam da doente, Jesus não se afasta, não foge. Aproxima-se dela. É assim que nós fazemos (em relação aos doentes)? Às vezes, não evitamos encontrar-nos com situações de sofrimento?
O segundo gesto de Jesus é ainda mais importante: "Ele toma pela mão a sogra de Pedro e levanta-a". Não se trata de um simples pormenor. Este verbo é usado no NT para indicar a "ressurreição". A doente que está na cama, incapaz de se mover, prisioneira da doença, representa todos os que são vítimas do pecado ou escravos de situações desumanas (doença, injustiça, opressão...). Jesus aproxima-se de todas essas pessoas, toma-as pela mão e ressuscita-as para uma vida nova. A tarefa do cristão hoje é repetir os gestos do Mestre: aproximar-se daqueles que não têm força para estar de pé e levantá-los da condição desumana em que se encontram.
O terceiro pormenor: a mulher curada que se põe a servir a Cristo e os irmãos - é tb significativo. Indica que quem foi curado, quem fez a experiência da libertação, não se pode esquecer do milagre que Deus operou em si, mas deve tornar-se um membro activo da comunidade.
B) A segunda cena apresenta-nos Jesus a curar todo o tipo de doenças (vv. 32-34).
· É necessário compreender bem o significado destas curas. (Não podemos confundir o cristianismo com a uma seita que procura fazer milagres a baixo preço): Se os cristãos rezam só para pedir a Deus curas, um pouco de sorte na vida ou um trabalho bem remunerado estão, de alguma forma, reduzir o cristianismo ao nível dos curandeiros, dos magos e adivinhos…
· Jesus não ensinou aos seus discípulos como se fazem milagres. Nem Ele próprio resolveu todos os problemas dos homens do seu tempo, mas limitou-se a realizar alguns gestos significativos para nos ajudar a compreender que Deus não aceita as situações que causam sofrimento, opressão ou marginalização. Curando os doentes, Jesus mostra tb que, com a Sua vinda, se iniciou um mundo novo donde será banido todo o sofrimento.
O que fazemos nós para colaborar na construção deste mundo novo? Para mudar este mundo, teremos necessidade de realizar prodígios (milagres) ou bastará aderir aos ensinamentos de Jesus?
Procuremos imaginar o que aconteceria se todos os homens aderissem a Cristo: em vez de lutarem, de se odiarem e fazerem guerra, uniriam as suas capacidades e esforços e colocá-los-iam ao serviço do bem e dos irmãos.
Assim, em pouco tempo surgiria um mundo novo e a fome, a doença e o sofrimento começariam a desaparecer.
CSCB